Comunicar para Pesquisar

 

 

 

Dr. Marcello Pedreira
Clinical Trials

Certo dia, em uma conversa informal com um amigo, ele me perguntou a quantas andava o lançamento de um novo medicamento que, como a imprensa já noticiara, seria uma provável solução para seus quilos a mais e aquele diabetes que, segundo seu médico, estava quase se tornando uma realidade.

Na verdade, o medicamento já estava prestes a ser aprovado na Europa e nos Estados Unidos, graças a mais uma árdua batalha campal travada por pesquisadores e pela Indústria Farmacêutica, cujas armas utilizadas foram o conhecimento e muitas, muitas pesquisas em bancadas e nas áreas clínica e pré-clínica. Eu falei batalha? Sim, foi exatamente isso que eu quis dizer. Contra quem? Aqui começa nossa história... 

O início das pesquisas de um novo medicamento – ou de uma nova indicação para um medicamento já conhecido – tem sempre lugar nas necessidades da população e dos médicos responsáveis por sua saúde. Por mais que alguns insistam em dizer que a Indústria Farmacêutica tenha investido ultimamente em drogas semelhantes a tantas outras, com o objetivo quase que único de auferir lucros, todas as pesquisas partem sempre de um espaço diagnóstico ou terapêutico ainda existente. Assim, quando um anti-hipertensivo é lançado dentro de uma classe onde já existam tantos outros, é sinal de que, em algum momento, mostrou-se uma potencial vantagem sobre os já presentes no mercado, quer seja do ponto de vista posológico, de segurança ou mesmo de eficácia. 

Já é bastante conhecido, entre um grande número de médicos, que uma droga pode demorar até 10 anos para sair das bancadas dos laboratórios e chegar até as farmácias. Durante esses 10 anos, porém, pouco se divulga a respeito dos verdadeiros esforços e investimentos realizados pelos pesquisadores e a Indústria Farmacêutica. O que resta, por outro lado, é um espaço para um sensacionalismo destrutivo por parte de áreas da mídia interessadas mais em conturbar do que prestar, de fato, um serviço à população. Culpa de quem? Da mídia apenas? Não. A culpa é também daqueles que não sabem comunicar a importância e a seriedade de seu trabalho, deixando espaço para este tipo de inimigo ganhar terreno. 

Um exemplo sempre recente da falta de informação adequada sobre o verdadeiro sentido das pesquisas com medicamentos é a ação desmedida de grupos radicais que se dizem protetores da vida animal, mas se esquecem que o homem também faz parte deste reino e igualmente luta para sobreviver. Assim é que tais grupos se revoltam contra pesquisas realizadas com animais de laboratório, essenciais para que um medicamento possa chegar às mãos de um de seus familiares e salvá-lo de situações que um dia foram fatais. Sempre que ouço notícias desse tipo, pergunto-me: será que essas pessoas se esquecem de que talvez a presença deles nesses protestos só tenha sido possível graças aos animais que eles dizem defender? Sem precisar ir muito longe, tomemos como exemplo as vacinas contra doenças infecciosas – e que certamente foram aplicadas nestes ativistas. Ninguém tem dúvida que elas tiveram uma ajuda fundamental de animais especialmente criados em laboratório, para esse fim. Assim como os animais lutam para sobreviver, sacrificando inclusive outros animais, existem ocasiões em que o animal homem também o precisa fazer. É esse tipo de informação, clara e honesta, que deveria chegar à população. 

Mas não pára por aí. Quando o assunto é o próprio homem envolvido nas pesquisas, as polêmicas continuam. Como poderia dizer aquele meu amigo do início, mesmo em tom de brincadeira, “quantas cobaias foram usadas para ver se esse medicamento vai ser bom mesmo?”. Cobaias, neste caso, referindo-se a voluntários que participaram do extenso plano de pesquisas clínicas necessárias para que as autoridades de saúde possam aprovar a disponibilização do produto à população. Esta imagem de cobaias, definitivamente, deve ser apagada. E já está sendo, de fato.

Graças a notícias sensacionalistas sobre resultados forjados e uso inadequado de pacientes em certos estudos clínicos, a Indústria Farmacêutica e os pesquisadores levantaram-se de suas cadeiras e estão revelando os únicos e verdadeiros propósitos das pesquisas: buscar, de maneira ética e científica, novos medicamentos e indicações para preencher um dos incontáveis espaços diagnósticos e terapêuticos ainda existentes. Além disso, esta iniciativa também deverá coibir e punir alguns poucos indivíduos amorais que um dia chegaram a pensar em realizar pesquisas sem respeitar as normas internacionalmente aceitas. 

WWW.CLINICALTRIALS.GOV

Uma das mais inteligentes medidas tomadas pelo Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos foi a criação de um website contendo informações regularmente atualizadas sobre todas as pesquisas clínicas com seres humanos, realizadas tanto com patrocínio governamental como das Indústrias Farmacêuticas. Toda a população mundial pode acessar livremente seu conteúdo. 

O site traz informações sobre os motivos que levaram à realização de cada uma das pesquisas registradas, como e porque os pacientes foram selecionados, onde estão sendo realizadas, quais são os patrocinadores, além de telefones de contato para a população ter acesso a informações complementares e, eventualmente, voluntariar-se para um determinado estudo. Em paralelo, existem importantes explicações sobre a participação voluntária em estudos clínicos e esclarecimentos sobre os riscos e benefícios dessa decisão, inclusive abordando o discutido tema do uso de placebo. 

O exemplo norte-americano poderia muito bem se seguido à risca por aqui, com informações em nossa língua e, principalmente, com uma adequada divulgação por parte da mídia. 

Uma tentativa começa a ser feita pela Sociedade Brasileira de Profissionais em Pesquisa Clínica (SBPPC), cujo site já apresenta uma seção para cadastro de voluntários e um Manual sobre Pesquisa Clínica voltado para o paciente
(
http://www.sbppc.org.br/asbppc_manual_publico_leigo.php). A ANVISA também caminha positivamente nesse sentido, com esboços de informações
(
http://www.anvisa.gov.br/medicamentos/pesquisa/def.htm), embora ainda bastante voltadas para profissionais de saúde envolvidos com pesquisas. Em seu site, a ANVISA mostra que acredita de fato na importância das pesquisas clínicas. Basta contar isso a todos.


Fonte: http://www.anvisa.gov.br/medicamentos/pesquisa/dados/graf/2006.pdf

É disso que precisamos. Uma comunicação clara e transparente sobre a importância dos estudos clínicos e pré-clínicos para que esse medicamento tão esperado por meu amigo chegue logo às mãos dos que possam dele se beneficiar. Comunicação inteligente. E construtiva.
 

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